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Nova Onda de Fusões e Aquisições: O que o setor de Papel e Celulose pode esperar para o futuro?

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Fonte: Revista O Papel

NOVA ONDA DE FUSÕES E AQUISIÇÕES: O QUE O SETOR DE PAPEL E CELULOSE PODE ESPERAR PARA O FUTURO?

As três maiores transações de fusões e aquisições no segmento de papel e celulose aconteceram no Brasil, do ano passado até agora, envolvendo Fibria, Eldorado e Lwarcel na ponta vendedora. Por ordem de importância, também vimos a finlandesa Powerflute, divisão da Nordic Packaging, sendo vendida para a Mondi, além da americana Catalyst Paper, que passou para as mãos da chinesa Nine Dragons. Ocorreram transações na área de papel e celulose também em Marrocos (Packaging Factory vendida para a IP), na Rússia (PEF Soyuz vendida para a Smurfit Kappa), no Egito (National Company vendida também para a Mondi).

 

Foram ao menos 20 as principais transações no mundo, incluindo o Brasil, em um período de, menos de 24 meses, somando em torno de US$18 bilhões (números não oficiais, pois algumas transações tiveram valores estimados por analistas) de ativos transacionados. Enquanto isso, o ambiente econômico no Brasil e no mundo seguiu desafiador, apesar de a atividade de fusões e aquisições parecer não se importar tanto assim.

 

Seria este o momento certo para se iniciar uma nova onda de consolidações na indústria de papel e celulose brasileira? Devemos ter receio da entrada de players internacionais no mercado doméstico? O que está de fato por vir? Internamente, ainda com o cenário eleitoral indefinido (este artigo foi escrito um pouco antes do 1º turno das eleições de 2018), a impressão que temos é que o ano ainda não começou. Após um 2017, que acenou com a estabilização da crise e primeiros indícios de retomada do crescimento, todas as expectativas do mercado foram depositadas no ano que se anunciava como excepcional: afinal, para 2018 ser melhor do que os anos anteriores, de profunda crise econômica, não era necessário tanto crescimento assim!

 

O que aconteceu na prática é que para boa parte dos setores da nossa economia, o ano será perdido. Meu pessimismo está baseado na premissa básica de que somente vale a pena investir no setor produtivo brasileiro, ou permanecer com seu capital investido (para quem já é empresário), se o retorno gerado a cada ano for adequado ao nível de risco assumido. Simples assim! Se o mercado não cresce a taxas altas, e a rentabilidade não cresce na mesma proporção, o risco não compensa.

 

Para sermos justos, há sim alguns números positivos recentes na nossa economia que devem ser destacados: agricultura crescendo, inflação e taxa de juros novamente em patamares ditos normais, a Formação Bruta de Capital Fixo (que mede o nível de investimentos na economia) voltando a mostrar indicadores positivos desde 2015. No setor de papel e celulose, vemos aumento nos volumes domésticos produzidos, aumento nas exportações.

 

Por outro lado, o nível de desemprego segue alarmante e isso afeta diretamente a energia do nosso mercado de consumo, por conseguinte, afeta a indústria. O PIB projetado para o final do ano é, a cada nova revisão, mais baixo. O Banco Central já fala em iniciar aumento gradual na taxa de juros. Na prática, o mercado está bom para os exportadores e para as commodities agrícolas em geral e isso se deve mais à fatores externos, como o câmbio, do que a méritos de nossa economia.

 

Assistimos também, desde o início deste ano, ao aumento da instabilidade política, com o atual governo sendo ainda mais implicado em escândalos de corrupção. A agenda de reformas ficou pelo caminho, pela falta de força política. Vimos pela primeira vez em nossa história um ex-presidente ser conduzido à prisão. Tivemos a Copa da Rússia no meio do caminho, que serviu para distrair o Brasil e o mundo durante um mês. O resultado da Copa trouxe à tona a realidade: sim, temos muito o que fazer como País para nos tornarmos líderes mundiais novamente, em várias áreas, inclusive no esporte. A impressão que temos é que, neste ritmo, nunca deixaremos de ser emergentes. Com o início da corrida eleitoral, que nas primeiras semanas também foi permeada por incertezas em relação ao nome dos candidatos, agora o Brasil (como também acontece no mundo) se encontra diante de uma polarização: esquerda ou direita? Saberemos o que acontecerá em poucas semanas, ou mesmo enquanto você lê este artigo, mas, independentemente do resultado, ficará para boa parte do eleitorado a impressão de que estamos vivendo “mais do mesmo”.

 

No cenário externo, ao longo deste ano, vimos o protagonismo de uma figura por assim dizer “pitoresca” à frente de uma das maiores potencias econômicas – a americana – travar batalhas comerciais com vários países: o mundo passou a enxergar na política uma estratégia comum utilizada no meio empresarial em negociações. Esta consiste em primeiro assumir uma postura dura e intransigente, para depois sentar à mesa e negociar. É inegável que, em várias frentes, o presidente dos Estados Unidos conseguiu fazer sua estratégia ser vitoriosa. O avanço mais simbólico deste momento, além da retomada na economia, foi a retomada das conversas com a Coréia do Norte, um inimigo histórico e com quem os Estados Unidos, no início deste ano, estiveram a ponto de deflagrar uma guerra. O inimigo da vez do presidente americano, sob o ponto de vista comercial, é a China.

 

Assim, a guerra de barreiras tarifárias entre Estados Unidos e China pode levar a consequências de difícil previsão, uma vez que os fluxos de comércio, historicamente bem definidos entre países emergentes e países desenvolvidos, pode ser modificado, afetando preços e, por conseguinte, toda a cadeia produtiva. Este cenário, para alguns analistas, pode afetar positivamente o mercado brasileiro. Mas para outros, nem tanto assim. A China segue isolada como principal produtora de papel e de madeira (neste caso quase 70% da produção mundial).Quando avaliamos a produção de celulose, a China se iguala ao Brasil em termos de volume. Todavia, em torno de 40% da nossa produção de celulose é exportada para o mercado chinês. Nosso segundo principal parceiro comercial na celulose é a Europa, com o dobro do volume que exportamos aos americanos.

 

Ou seja, nossa produção interna e o aumento da relevância do Brasil no cenário mundial de papel e celulose depende do bom humor da economia chinesa e do reestabelecimento do crescimento dos principais países do continente europeu ainda abalados pela última crise internacional. Nossa vocação inegável é de exportador de matérias-primas no segmento, pela imponência da nossa área plantada e boa maturidade do parque fabril instalado. Com isso, o Brasil acaba sendo um ponto geográfico estratégico e inevitável para os principais produtores do mundo.

 

Voltando a olhar para o Brasil, internamente, nossa análise sobre uma possível nova “onda de fusões e aquisições” no setor de papel e celulose precisa refletir sobre o que aconteceu no País em relação às transações de compra e venda de maneira geral. O ano passado registrou um desempenho impressionante no número total de transações (830 negócios conforme relatório da KPMG), se comparado com 2017.

 

Novamente destacam-se as transações relacionadas ao mercado de Tecnologia da Informação, ainda muito pouco concentrado, seguidas do mercado de alimentos e bebidas, apresentando-se então como os dois segmentos com maior volume de negócios no Brasil. Os negócios que aconteceram nas áreas de papel, celulose e embalagens (embalagens em um sentido amplo quanto ao tipo de matéria-prima), considerando o ano de 2017, totalizaram 13 transações, superando as 11 realizadas em 2016 (entenda-se, negócios divulgados na mídia).

 

Nas últimas duas décadas o número de negócios nesses setores de papel, celulose e Embalagens foi, em média, de 9 ao ano, com o ano de 2015 sozinho responsável por 19 transações. Especial menção ao número de negócios que já foram anunciados até o primeiro trimestre de 2018, conforme o mesmo relatório: 6 transações em papel e celulose. A continuarmos neste ritmo, teremos um ano recorde para um dos setores que carrega a responsabilidade de ser um termômetro da nossa economia. Ainda assim, nossa média de 9 negócios ao ano é muito inferior à do segmento de metalurgia e siderurgia (tão intensivo em capital quanto o de papel e celulose), que apresentou média de 14 transações ao ano.

 

Um pouco mais de 50% de todos os negócios de 2017 no Brasil envolveu empresas de capital estrangeiro, um percentual que já foi maior no passado e que carrega um pouco desta incerteza no Brasil dos últimos anos. Não obstante, no mesmo período, dos 13 negócios no setor de papel, celulose e embalagens, 9 envolveram estrangeiros. Dos 4 negócios realizados somente entre brasileiros no ano passado, chamados de domésticos, todos foram na indústria de embalagens (salientando que não há distinção entre tipos de embalagens).

 

O grupo Suzano vem liderando os movimentos de consolidação em papel e celulose, com maior número de anúncios de transações. Para mencionar alguns, em 2015 foi a vez da paranaense Ibema, em transação que envolveu troca de ativos (fábrica de Embu da Suzano foi transferida à Ibema). Em 2016 foi a compra de ativos florestais da Companhia Siderúrgica Vale do Pindaré e da maranhense Cosima, além de uma pequena central hidrelétrica chamada Mucuri Energética.

 

Ao final de 2017, o Grupo Suzano anunciou a compra da FACEPA – Fábrica de Papel de Amazônia –, aumentando sua representatividade em negócios adjacentes à celulose, principalmente na linha de bens de consumo. A transação foi aprovada e concluída em 2018. No início deste ano, a Suzano e a Fibria anunciaram uma transação que, após muito questionada, foi recentemente aprovada pelos acionistas de ambas as companhias (ainda sujeita a questões regulatórias). Com a aquisição da integralidade do capital da Fibria, a Suzano, que pagará algo próximo a R$ 50 bilhões pelo negócio, conquistou, além do título de maior transação brasileira desde 2008, o de maior transação no setor de papel e celulose no mundo nas últimas décadas.

 

Há quem pontue que, tendo em vista a matriz de vendas das duas empresas, baseada na exportação para a Ásia, manter competitividade em um mercado, em que Stora Enso, UPM, CMPC, além de Eldorado e Klabin, são players ativos, não será nada fácil. O que se pode afirmar é que este é um movimento pensado e que os riscos foram ponderados pela Suzano, inclusive os relacionados à sua alavancagem financeira. O grupo Suzano foi seguramente o player mais ativo em aquisições nos últimos 5 anos.

 

Algo que parece não estar tão dentro do planejado é a aquisição da Eldorado pela Paper Excellence. Anunciada em 2017, a aquisição desta divisão dos negócios da J&F (controladora do grupo JBS) ainda não será definida este ano, ao menos é o que tudo indica, dado o início do processo de arbitragem que foi instaurado pelas partes. A Paper Excellence teria motivado a Suzano a movimentar-se defensivamente, buscando a Fibria. O ano de 2018 também já assistiu a mais um investimento no segmento de celulose, com o grupo asiático Royal Golden Eagle adquirindo a paulista Lwarcel, do grupo Lwart. Conforme divulgado no mercado, ao menos mais um grupo português (Navigator Company) teria participado da disputa pela empresa paulista.

 

Também se especula no mercado que outro importante player do setor de celulose, que vem apresentando resultados negativos, está sendo negociado. Neste caso, com base no perfil da empresa-alvo e sua posição de mercado, podemos imaginar que entre os pretendentes, se existe mais de um, estaria um grupo estrangeiro de grande presença global que já fez investimentos no Brasil. Ou seja, vemos investidores estrangeiros cada vez mais interessados no nosso mercado, a despeito de todas as turbulências pelas quais a economia vem passando, motivados por, a meu ver, o seguinte: as transações de fusões e aquisições, em sua maioria, não acontecem por caráter especulativo, mas por decisões que analisam o longo prazo e as perspectivas de crescimento frente ao risco que se estima correr.

 

Em sendo as melhores estimativas de crescimento para o mercado global de celulose para os próximos anos as de algo na casa de 2% ao ano (em volume), restam aos players globais, como estratégia para perpetuação e crescimento no mercado, posicionarem-se melhor geograficamente.

 

Conclusão

 

Sob o ponto de vista da indústria de base, referindo-me à matriz florestal e produção de celulose, creio que, por hora, todos os maiores movimentos de fusões e aquisições prováveis de serem estimados já aconteceram diante de nossos olhos no Brasil. A onda então, já passou. O mercado nacional sofrerá agora as consequências, a meu ver positivas, de aumento de produtividade, de maior competitividade e participação de players estrangeiros em nossa economia, o que deve ter um efeito também consolidador para as demais empresas da cadeia, mencionando aqui a indústria de transformação do papel e toda a cadeia de fornecedores para este mercado.

 

Se há uma onda por vir, será esta a do mercado consumidor de papel a ser instigado a ganhar poder e fôlego diante de fornecedores mais fortes, pressionando empresas dependentes de matéria-prima, por meio de fusões e aquisições, a se aliarem à players maiores. Com isso, o mercado se aperfeiçoa, os riscos inerentes à atividade empresária no Brasil são minimizados (em especial o custo de capital, que é mais atrativo para quem pode se financiar no exterior) e se aquece a economia.

 

Se eu acredito que este movimento representa o fim da atividade empresarial de base familiar no mercado de papel e celulose no Brasil? Não. Tanto é verdade que o maior player no Brasil é de base familiar. O que não se sustentarão no mercado são as empresas com baixa produtividade, sem governança e que insistem em adotar práticas baseadas na informalidade. Estas, a “onda” do mercado não perdoará.

 

E para concluir, pergunto: será que os investidores estrangeiros estão preocupados com quem vencerá a eleição, se azuis ou vermelhos? Eu diria que os investidores estão atentos, mas independentemente de quem subir a rampa do Palácio do Planalto em janeiro de 2019, o mundo seguirá girando.

 

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